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 Recreação Magazine

    Centro de Estudos do Lazer, Educação, Integração, Recreação e Ócio                                                                        Ano I - Numero 03 - Dezembro/09

  

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Max brinca de monstro e quem se diverte é o leitor

Por Isabel Lopes Coelho*

Em um ensaio sobre livros infantis, Walter Benjamin [“Visão do livro infantil”, in Reflexões sobre a criança, o brinquedo e a educação] se admira com o efeito que as belas edições ilustradas em xilogravura podiam causar nos leitores, transportando-os para universos que só parecem distantes, mas estão dentro de cada um que toma contato com aquelas obras. Durante a leitura desses livros, que envolve tanto palavras como imagens, a criança “vence a parede ilusória da superfície e, esgueirando-se por entre tecidos e bastidores coloridos, adentra um palco onde vive o conto maravilhoso”.

A relação que a criança desenvolve com o livro, portanto, é colaborativa: a história nunca acaba, recriando-se como uma eterna brincadeira de faz-de-conta. Nesta fantasia, ela estabelece as regras, o destino dos personagens, os lugares imaginários, à sua maneira: “Ao elaborar histórias, crianças são cenógrafos que não se deixam censurar pelo ‘sentido’”.

É exatamente esse um dos pontos altos de Onde vivem os monstros (Cosac Naify, 2009), escrito e ilustrado por Maurice Sendak. Logo nas primeiras páginas, surge uma criança imersa em seu próprio universo fantástico: Max, o menino vestido de lobo, improvisa uma cabana em seu quarto, pendura o urso de pelúcia como uma presa e, com ar monstruoso, sai pela casa “fazendo bagunça”. Até que a realidade do lobo encarnado por Max entra em confronto com a do adulto, que o manda “para cama sem comer nada”. E aquilo que era apenas uma cabana feita de cobertor e lençol se transforma em uma floresta de verdade, sem limites de tempo e espaço.

Assim Sendak transportou para as páginas do livro a brincadeira mais pueril: imaginar um lugar diferente daquele que o corpo ocupa no tempo presente, e fazer disso real. Desta maneira, o autor transforma o ato de ler em algo divertido, em que a única regra é explorar todas as possibilidades de imaginar seres e mundos. As palavras e as ilustrações coloridas – que simulam uma gravura – servem de pretexto para mais uma nova leitura.

Max não é apenas o personagem de uma história. Ele representa a liberdade que a diversão proporciona a cada leitor. E faz das palavras de Benjamin uma doce verdade: “Debruçada sobre a gravura em cobre colorida, a fantasia da criança aprofunda-se sonhadora em si mesma”.       

 

*Isabel Lopes Coelho é editora do catálogo
infanto-juvenil da editora Cosac Naify

 

 

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