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Max brinca de monstro e quem se diverte é o leitor
Por Isabel Lopes Coelho*
Em um ensaio sobre livros infantis, Walter Benjamin [“Visão do livro
infantil”, in Reflexões sobre a criança, o brinquedo e a educação]
se admira com o efeito que as belas edições ilustradas em xilogravura
podiam causar nos leitores, transportando-os para universos que só
parecem distantes, mas estão dentro de cada um que toma contato com
aquelas obras. Durante a leitura desses livros, que envolve tanto
palavras como imagens, a criança “vence a parede ilusória da superfície
e, esgueirando-se por entre tecidos e bastidores coloridos, adentra um
palco onde vive o conto maravilhoso”.
A relação que a criança desenvolve com o livro, portanto, é
colaborativa: a história nunca acaba, recriando-se como uma eterna
brincadeira de faz-de-conta. Nesta fantasia, ela estabelece as regras, o
destino dos personagens, os lugares imaginários, à sua maneira: “Ao
elaborar histórias, crianças são cenógrafos que não se deixam censurar
pelo ‘sentido’”.
É exatamente esse um dos pontos altos de Onde vivem os monstros (Cosac
Naify, 2009), escrito e ilustrado por Maurice Sendak. Logo nas primeiras
páginas, surge uma criança imersa em seu próprio universo fantástico:
Max, o menino vestido de lobo, improvisa uma cabana em seu quarto,
pendura o urso de pelúcia como uma presa e, com ar monstruoso, sai pela
casa “fazendo bagunça”. Até que a realidade do lobo encarnado por Max
entra em confronto com a do adulto, que o manda “para cama sem comer
nada”. E aquilo que era apenas uma cabana feita de cobertor e lençol se
transforma em uma floresta de verdade, sem limites de tempo e espaço.
Assim Sendak transportou para as páginas do livro a brincadeira mais
pueril: imaginar um lugar diferente daquele que o corpo ocupa no tempo
presente, e fazer disso real. Desta maneira, o autor transforma o ato de
ler em algo divertido, em que a única regra é explorar todas as
possibilidades de imaginar seres e mundos. As palavras e as ilustrações
coloridas – que simulam uma gravura – servem de pretexto para mais uma
nova leitura.
Max não é apenas o personagem de uma história. Ele representa a
liberdade que a diversão proporciona a cada leitor. E faz das palavras
de Benjamin uma doce verdade: “Debruçada sobre a gravura em cobre
colorida, a fantasia da criança aprofunda-se sonhadora em si mesma”.
*Isabel Lopes Coelho é editora do catálogo
infanto-juvenil da editora Cosac Naify
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