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Rodas
Cantadas
A roda cantada é uma prática educacional
que permite exercitar vários aspectos do desenvolvimento humano. Nesta
edição daremos atenção especial ao aspecto físico, orgânico e funcional,
dentro do universo do brincar de cantar e dançar.
Por "rodas cantadas" entenderemos em nossos
estudos como os trabalhos musicais que possam ser realizados com
crianças, jovens e adultos apenas com o uso de voz, ritmo e movimento,
com objetivos recreativos, sem uso de acompanhamentos instrumentais e
sem a necessidade de preocupar-se com a métrica musical, divisão correta
de tempos e compassos ou regras semelhantes. Podem ser propostos por um
dinamizador, como um recreacionista ou professor, ou podem surgir por
iniciativa do próprio grupo em um momento de lazer, não sendo
obrigatório que se realizem em posição de roda.
As Rodas Cantadas e o Desenvolvimento
Físico.
Estou aqui novamente para prosseguir em nossos ensaios sobre a
manifestação das "rodas cantadas" e de suas implicações no contexto
educacional, seja ele escolar ou da educação informal.
Se você não tem acompanhado esta seção da revista, venho tratando deste
tema há duas edições, onde abordei os aspectos gerais do trabalho com
rodas cantadas e depois, mais particularmente sobre o desenvolvimento e amadurecimento dos aspectos emocionais, através
da prática das rodas.
Neste mês, dando sequência à proposta, abordarei os aspectos físicos do
trabalho com rodas cantadas, lembrando sempre que esta divisão só se
justifica sob os aspectos pedagógicos de facilitar a compreensão e que o
desenvolvimento que provem da experiência ocorre de maneira integral.
Para iniciarmos esta conversa precisamos primeiro entender o paradigma
corpo-educação. A educação física, por não se enquadrar no modelo
de educação atual, com uma processo de ensino voltado para o futuro,
focada no educar para o amanhã, não recebe adequada atenção. Esta
visão de educar não valoriza atividades que tenham ganhos ou objetivos
em si mesmo, voltadas ao hoje, ao momento. O que parece estranho é
que as pessoas vêm esquecendo que o futuro se constrói concretamente
hoje. O abandono do hoje pode prejudicar seriamente a construção
do amanhã. Precisamos colher algo para continuarmos plantando.
Principalmente nas idades iniciais e adolescência, nosso cérebro não
está pronto para o planejamento de longo prazo e, assim, o plantar sem
nunca colher cria uma perda de perspectivas. Os sonhos se
enfraquecem e por vezes morrem. Ninguém continua por muito tempo
em um túnel que não apresenta nenhuma luz em seu final! É preciso
de respostas, satisfação, prazer no fazer de hoje, para que eu possa
continuar a fazer amanhã.
No entanto este esquecimento da importância do agora, do trabalhar com o
equipamento, do lubrificar a máquina que gera todos os nossos
movimentos, tem causado grave consequências... a perda da visão
integral, a diminuição da identidade, o enfraquecimento do ser para
poder pertencer. Se não me fortaleço no que sou, como posso fazer
parte de algo, de um grupo, de uma comunidade.
As rotinas mecânicas do dia a dia, dos deslocamentos de carro, ônibus,
trem, em oposição ao andar, os elevadores no lugar das escadas, o
apertar de botões, com baixo envolvimento muscular, com pequenas
necessidades de coordenação ou habilidades físicas, em contraponto com o
fazer manual, têm criado corpos enferrujados.
À isto une-se as interferências culturais que trazem corpos totalmente
cobertos, escondidos entre mangas longas, calças compridas, meias
e sapatos, mesmo que no calor! Isto provoca uma crescente perda da
imagem corporal, da sensibilidade, da expressão, do contato, do toque,
do sentir o abraço na pele! Consequentemente uma perda de parte
importante de nosso ser... "somos" o nosso corpo e não "temos"
um corpo. Gera-se assim pessoas com pouca atitude, inseguras, sem
falar nos transtornos de imagem como a anorexia, bulimia, obesidade, etc,
e os transtornos cinestésicos e ortopédicos, ligados a baixa percepção
de movimento, baixa coordenação óculo-segmentar, má postura da coluna,
ombros, quadris e pernas.
Como segundo ponto, gostaria de destacar questões relacionadas à
comunicação. Nosso corpo é ferramenta responsável também por
transmitir informações, o movimento é uma linguagem que apresenta ao
mundo constantes informações sobre nossa personalidade, sobre nossas
emoções e também sobre o que queremos ou estamos falando. Um corpo
treinado, com gestos expressivos, cheios de significado, é capaz de se
fazer entender muito mais rapidamente e com maior qualidade. Por
vezes sem nem necessitar falar. Uma boa expressividade corporal
auxilia na auto-confiança e consequentemente facilita os contatos
sociais.. Pode observar, no geral, pessoas que trabalham com o
corpo têm bastante amizades, vivem cercados de pessoas. Já pessoas com
poucas amizades, comumente apresentam características de bloqueios
corporais.
Por fim uma outra análise em que podemos nos deter é com relação à saúde
e o desenvolvimento funcional do corpo. A roda cantada, enquanto
atividade física, se caracteriza como atividade aeróbia, uma vez que o
participante se movimenta com baixa intensidade por um tempo
razoavelmente longo, mobilizando muitos segmentos do corpo, como braços,
pernas e tronco.
Este tipo de exercício provoca estimulação de sistema cardio vascular
podendo, quando feito com constância, trazer melhorias nas funções
circulatórias, respiratórias, musculares, articulares e até digestivas.
A produção de endorfinas provenientes do movimento em combinação com a
tenção provocada pelos desafios das atividades pode causar ainda grande
sensação de prazer e de relaxamento, auxiliando no controle do stress.
Podemos concluir então que o brincar, o movimento, o cantar, o desafio
característico das atividades de roda cantada, devido aos elementos
rítmicos e de coordenação, podem provocar grandes melhorias físicas em
seus participantes, sejam alunos ou recreandos. Justifica-se assim
uma inserção deste conteúdo em atividades recreativas, assim como em
atividades educacionais, tanto no contexto próprio da Educação Física
Escolar, como no próprio dia a dia da sala de aula, integrando-se com o
aprender para hoje e amanhã, de maneira integral.
Ronaldo Tedesco Silveira
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